quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A ciclovia mais tubular do planeta - Hawaii


ARBORIZADA: Mata fechada também faz parte do cenário da ciclovia havaiana (FOTOS: arquivo HARDCORE)
Fim de ano, para o surf, é sinônimo de Hawaii. É partir de novembro que os melhores atletas do planeta desembarcam em Oahu para disputar a Tríplice Coroa Havaiana - eventos mundiais que encerram a temporada profissional. Ao revirar meu arquivo de revistas, encontrei um texto escrito por mim, um raio-x do North Shore, durante uma das coberturas que fiz para a HARDCORE. Pelo tema (bike e surf) e pela época, resolvi republicá-lo neste espaço.


Quando escolhemos uma viagem, o primeiro pensamento é quais pranchas deveremos usar. Elas são imprescindíveis para qualquer surfista. Sem elas não podemos ser quem realmente somos. Porém, se o Hawaii está na fila de seus possíveis destinos, lembre-se que descolar uma magrela (aquela de duas rodas) poderá dar outra cara para a sua temporada. Com o trânsito piorando a cada ano na única estrada que corta o North Shore, a Kamehameha Hwy, ir para os picos pedalando pode ser uma solução prazerosa. A liberdade de ir e vir com prancha debaixo do braço e vento batendo na cara rejuvenescem qualquer um. A Bike Lane tem quase 5 quilômetros, é suave, com duas ou três elevações mínimas. Paralelo a isso, ondas de sonho que entram na lista das bancadas mais assediadas da Costa Norte de Oahu. Duvida? Então mergulhe na ciclovia mais tubular do planeta.
DE BACKYARDS A ROCKY POINTÉ na esquina da Oopuola St. com a Kamehameha Hwy que a Bike Lane começa, pelo menos pra mim e pra maioria dos surfistas que costumam se hospedar nessa área. A Oopuola St. termina exatamente nas areias de Backyards, pico conhecido por suas direitas rápidas e pouco crowdeadas. Foi aqui também que os brazucas Júnior Faria, Jerônimo Vargas, Jessé Mendes, Cauê Wood e Lucas Silveira ficaram nesta temporada. 

Logo ao entrar na ciclovia, você se depara com uma mata fechada que ajuda a manter o clima fresco, amenizando o sol forte do inverno havaiano. Na primeira curva à direita, porém, o cheiro de rango é inevitável. Isso indica que estamos passando pela famosa Ted´s Bakery, lanchonete bastante frequentada pelos locais. Lá não é difícil cruzar com o big rider Tamayo Perry na fila do caixa ou esbarrar o freesurfer Jaime O´Brien na tentadora vitrine de tortas e muffins de blueberry.

A
pós algumas pedaladas, a Bike Lane cai numa rua paralela, a dos locais. Isso acontece em muitos trechos, por isso é bom ficar esperto com o entra e sai de carros. Esse trajeto é bem aberto. É possível ver, à esquerda, o morro carregado de árvores que cerca o North Shore. Também é bacana observar as casas dos locais, com suas garagens lotadas de pranchas e todos os tipos de bugigangas. Aqui a respiração começa a ficar ofegante com a subida que dá no estacionamento de Sunset Beach. Se você não estiver com o preparo em dia, mude de marcha para aliviar o ritmo.


ATENÇÃO: O belo visual se mantém mesmo quando a ciclovia se afasta da orla
A
o chegar em Sunset você já sente a diferença. O asfalto da ciclovia é tomado por uma boa quantidade de areia. Para ter uma ideia, há um cara contratado somente para varrer este trecho. O coroa aparece quase todos os dias com o seu cachorro vira-lata. Dá três varridas, para e olha para o mar. Dá mais três varridas, olha para o mar de novo. O salário dele não deve ser lá grandes coisas mas, quer saber, ele não está nem um pouco preocupado com isso. 

Pise no freio para não atropelar nenhum turista. Eles amam fotografar Sunset Beach. Ficam tão extasiados com a beleza do lugar que congelam com suas máquinas no meio da pista. O jeito é mandar um “excuse me” e seguir adiante.

A
lguns metros e lá vem uma pontezinha, estamos em Kammieland, direitas e esquerdas cheias, ideais para quem ainda não está com a confiança em dia para enfrentar as ladeiras furiosas da vizinha Sunset. Rua dos locais novamente, uma caixa de correio customizada com o nome Ken Bradshaw. Isso mesmo, é a casa do texano mal encarado que adorava morder pranchas. Ele explodiu na mídia após dropar um monstro de 45 pés no Outside de Log Cabins, no final dos anos 90.

CHECANDO AS ONDAS: Entrada de Rocky Point
É a partir daí que o movimento na ciclovia aumenta, pois os picos mais disputados estão neste trajeto, começando por Rocky Point, passando pelas esquerdas de Pipe e pelas bancadas de Backdoor e Off The Wall. Do lado esquerdo, o único posto de gasolina da região, o Chevron, famoso pelos “havaianos gigantes que se vestem de moçoilas”. É aqui que a molecada evita ir ao caixa. A regra é tirar par ou ímpar para ver quem será o azarado da vez. Mais algumas pedaladas e você já saca qual é a onda do dia pelo constante movimento dos surfistas. 

Dias depois do histórico evento Eddie Aikau, Rocky’s quebrou de gala e a brasileirada marcou presença. É nesses dias que o surf high performance prevalece. Neco Padaratz e Léo Neves destroçaram os lips ao lado da nova geração. Passando Rocky Point, você encara uma reta com mata fechada, a única de toda a Bike Lane que dá para visualizar lá na frente. É aqui que a magrela pede uma marcha mais pesada para despertar a adrenalina, já que Pipe está a menos de 300 metros. 

DE PIPELINE A ROCKPILESA escola Sunset Beach Elementary School, à esquerda, é a prova viva de que chegamos em Ehukai Beach Park. Aqui a infra-estrutura é bacana. Chuveiro com água doce, bebedouros, banheiros, mesas para piqueniques. E o melhor de tudo, a mítica esquerda, palco do Pipeline Masters, capaz de inflar ou achatar o ego dos surfistas em frações de milésimos. 

Vale destacar o desempenho e respeito que alguns brazucas vêm adquirindo com o tempo de outside. Por exemplo, é bem provável que você veja Stephan Figueiredo ou Bruno Santos dropando uma boa da série assim que pisar na praia. Ao lado, o disputado beachbreak de Ehukai, que os prós apavoram nos aéreos quando os demais picos estão ruins. Jordy Smith que o diga, com suas variadas invenções acrobáticas giratórias. 

E não podemos esquecer da direita “buracaça” de Backdoor, sempre muito mais sinistra que a irmã Pipeline. Nos dias clássicos, a areia fica abarrotada para acompanhar o espetáculo. Prepare-se, porque enquanto estiver de dia, você não conseguirá dar as costas pra tudo isso.

Voltando para o asfalto, o trajeto torna-se novamente arborizado. Se você quiser cruzar com os locais mais casca-grossa, pegue a rua deles. Você passará pelo quintal da casa da Volcom e também pela famosa entradinha (escadinha) de Pipe. 

Neste percurso, cuidado para não paquerar a primeira gata que você ver na Bike Lane. Nada de “fiufiu” e olhadas mal intencionadas. Muitas esposas de atletas dão suas corridinhas por lá. A mulher de Sunny Garcia é uma delas. Que tal? 

Assim que você avistar um muro de pedras, à sua esquerda, e um grande volume de areia no caminho, estamos em Off The Wall. Esse pico quebra em frente a um outro muro de pedras, por isso o curioso nome “atrás da parede”. Aqui a luz fica perfeita no final de tarde. Se avistar uma enorme fileira de fotógrafos, estacione a bike, sinal de que o bicho tá pegando. 

Passando OTW, a ciclovia ganha cara de acostamento. O contraste silêncio versus barulho é evidente. Agora estamos em plena Kamehameha Highway, então fique ligeiro com o intenso vaivém das carangas. Mais um amontoado de areia no asfalto devido às ressacas, chegamos a Rockpiles. Pico casca, com uma baita correnteza e que funciona de frente para as pedras. Bom termômetro para sentir como as ondas estão, já que é possível vê-las da estrada. 

Nestes momentos é bom lembrar que a Bike Lane tem duas mãos, portanto, cuidado para não dar de frente com alguém enquanto seus olhares estão voltados para o lineup.
DE LOG CABINS A WAIMEAEste percurso é sinuoso, com lombadas e rachaduras no asfalto. Também mais vazio, pois não é todo mundo que topa pedalar até o destino final, a baía de Waimea. 

Log Cabins é a próxima bancada depois de Rockpiles. Direitas e esquerdas que quebram brutalmente na beira. Na sequência, Keiki, uma prainha bem visual e tranquila, ideal para produzir fotos de lifestyle e editoriais de moda. Aí vem uma ponte e algumas rampinhas de enduro na lateral, que a molecadinha fica pirando nos saltos. Novamente um trecho aberto e caímos na rua dos locais. 

Fique atento aos detalhes, sempre. As pessoas não usam a Bike Lane apenas para correr, pedalar ou caminhar, mas também para homenagear amigos ou familiares queridos que partiram para uma outra. Eles colocam fotos, colares e dizeres em forma de lembrança.

R.I.P: Homenagem aos que já se foram na Bike Lane
Mais algumas pedaladas e saímos em Shark’s Cove. Um cantinho de pedra com água transparente, ótima pedida para um mergulho relax nos dias flat. Do outro lado da rua, a surfshop do tube rider Liam McNamara, onde os Tops deixam suas pranchas à venda quando os eventos terminam. 

Os caras têm de tudo um pouco, se cavocar acha coisa boa. Na sequência, o Foodland, ou melhor, Freezyland (leve um moleton, o inverno é lá dentro), o mercado mais acessível pela praticidade, e não pelo preço. Aqui você encontra toda a galera do North Shore, de atletas a astros de Hollywood, principalmente do seriado Lost, filmado no lado oeste de Oahu. 

  
BEM FREQUENTADO: De atleta a astro de cinema, todos vão à Foodland
Neste momento, minhas pernas pedem um breve descanso, embora o percurso seja tranquilo. Mais uma pontezinha, o mar ainda faz companhia. O sol esquenta o corpo, maltrata o rosto. 

A Bike Lane está no fim, mais algumas pedaladas e damos de cara com um muro verde. Na teoria ela termina aqui, mas na prática o pessoal segue a jornada pelo acostamento da Kamehameha até Waimea (mais uns 400 metros). Daí você passa pela famosa igrejinha, que fica numa subidinha leve, e pelas casas mais disputadas pelos profissionais das lentes. 

Nos dias grandes, fotógrafos e cinegrafistas usam a lábia ou chegam com presentes para os donos em busca de um ângulo diferenciado. Já outros preferem o corredor de Waimea para registrar as bombas do shorebreak. Daqui você consegue ver a baía toda. Quem viu in loco a vitória de Greg Long precisou de um bom tempo para processar o dia fatídico. 


SOSSEGO: Ao contrário do outside, no Havaí a bike lane é privilegiada pela calmaria 
A baía fechando, os competidores estendendo seus limites, o público gritando da areia. Tudo foi muito intenso, como as séries de Waimea quando surgem do nada. Enquanto fechávamos esta edição, a menina graúda ainda mostrava a sua fúria sem parar. Integrantes da nova geração brasileira desafiavam seus limites. 

Remavam lá pra fora para encarar o maior mar já surfado por eles, como os drops insanos dos atirados Yan Guimarães e Felipe “Gordo” Cesarano. Waimea foi a onda da vez, foi ela quem deu o tom havaiano (leia-se ondas grandes e pesadas) desta inesquecível temporada de 2009/10.   




Fonte: Go Outside

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